Friday, February 17, 2006




















ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto . horto de incêndio

Tuesday, February 07, 2006

Penso: que estranha pretenção a de queremos saber alguém de cor.

Friday, January 20, 2006

Dias antes das eleições presidenciais, as televisões inundam-se com campanhas, os jornais estampam candidatos confiantes, os debates acendem-se. Domingo é mesmo preciso votar. E, apesar de tudo isto, não escrevo com a pretenção de fazer campanha...pura e simplesmente tenho sentido aquele estranho apelo à nostalgia, ao tão típico e genético saudasismo português, ao patriotismo irregular que nos leva à rouquidão pela selecção nacional. Ao acaso, encontrei-me a pensar que sou indissociável de uma história, dum país, do fado, do mar, da saudade...e acredito em Portugal, por mais vão e comum que pareça dizê-lo desta forma. E a propósito disso, lembrei-me de uma música que ouvi tantas vezes na rádio quando era miúdo - e na altura não percebia muito bem. E voltei a ouvi-la hoje...é mesmo bonita:
Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Magro sopro encanto
Nau de vela em cruz
Foi nas ondas do mar
Do Mundo inteiro
Terras da Perdição
Parco império, mil almas
Por pau de canela e marzagão
Pata de negreiro
Tira e foge à morte
Que a sorte é de quem
A terra amou
E no peito guardou
Cheiro a mata eterna
Laranja, Luanda
Sempre em flor.
a queda do império, Vitorino

Wednesday, January 11, 2006

daqui a nada é tempo demais.

Sunday, January 08, 2006

"Arrepende-te apenas daquilo que não fizeste"

Quem foi o palerma que escreveu isto?

Saturday, January 07, 2006


Fotografia de Baciar


humedecerei os teus lábios cancerosos
até que percebas o clarão que sofrivelmente
salivas sobre as mãos, a articulação
demoníaca que segregas nos tendões ou
o leite materno que gotejas dos dedos. alguma
borboleta vive para que conscientemente
regurgites o amor nas paredes de casa
prendendo os cabelos com o cordão
umbilical desse filho concebido.

José Nuno Magalhães

Thursday, January 05, 2006

imagina que deus te fez para mim. como se a maravilha que vivo fosse só a consequência da sua vontade. imagina que tudo será perfeito, mesmo que, tão precipitadamente, entendamos ter encontrado o que não existe

valter hugo mãe in casa de osso